Na semana passada (3), o Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central - BC), decidiu manter a taxa básica de juros (SELIC) em 10,5% ao ano, em decisão unânime, contando com o alinhamento dos diretores indicados pelo presidente Lula, incluindo Gabriel Galípolo, favorito para assumir o BC em 2025.
Contudo, a divulgação das informações não facilita a compreensão das razões para a manutenção da taxa de juros em níveis tão elevados e que aflige diretamente o setor produtivo e de consumo.
A falta de clareza é ainda maior ao explicar que uma das razões é o descontrole das contas públicas. Tento aqui esclarecer os motivos do Comitê, especialmente considerando as políticas fiscais.
O que diz a nota do Copom ...
O comunicado diz que, “[...] a percepção dos agentes econômicos sobre o cenário fiscal, tem impactado os preços de ativos e as expectativas dos agentes”, e que o Comitê, “[...] monitora com atenção como os desenvolvimentos recentes da política fiscal impactam a política monetária”.
... sobre política fiscal...
O Comitê reafirma que “... uma política fiscal crível e comprometida com a sustentabilidade da dívida contribui para a ancoragem das expectativas de inflação e para a redução dos prêmios de risco dos ativos financeiros, consequentemente impactando a política monetária.”
... não ajuda a compreensão ...
O problema deste 'economês' é que ele gera falta de entendimento na maioria das pessoas e compromete a participação e a tomada de decisões informadas em questões que afetam a vida de todos nós.
..., mas facilita a manipulação.
Não deixar claro o que leva a tais decisões permite que discursos inflamados e populistas utilizem informações econômicas distorcidas para ganhar apoio e desenvolver políticas públicas baseadas mais em retórica do que em análises econômicas sólidas.
As contas públicas ...
A nota menciona um cenário fiscal que sugere uma possível falta de compromisso do governo com as contas públicas, podendo causar desequilíbrios entre receitas e despesas devido a gastos excessivos. A questão é: qual a relação entre os gastos governamentais e a taxa de juros?
..., o papel do Banco Central ...
É importante destacar que o BC tem como atribuição principal manter a inflação no patamar decidido pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), que estipulou a meta de 3% para 2024 e 2025, e utilizará todas as ferramentas necessárias para alcançá-la.
... e quem consome a produção ...
Um segundo ponto importante é que tudo consumido foi produzido previamente; não se consome o que não existe, e o que é produzido é consumido por dois agentes: o setor público (governo) e o setor privado (famílias e empresas).
... disputando seu quinhão ...
Os dois agentes, público e privado, consomem do mesmo "prato", que contém tudo o que foi produzido. Se um consome mais, falta para o outro, levando a uma disputa pela mesma quantidade disponível. Essa competição eleva os preços, o que caracteriza inflação.
... sob o olhar do BC ...
Não é possível detalhar aqui como a inflação prejudica a economia, mas cabe ao Banco Central (BC) agir para controlar o consumo de um dos agentes e, assim, diminuir a pressão sobre os preços.
... que cumpre seu dever ...
O Banco Central (BC) não pode intervir nos gastos governamentais, mas pode desestimular o consumo privado aumentando a taxa de juros. Juros mais altos inibem os investimentos produtivos das empresas e o consumo das pessoas.
... arrefecendo a demanda...
Ou seja, um apetite maior do governo por gastar, precisa ser compensado com uma redução dos gastos pela outra parte (empresas e famílias). Simples assim.
... mesmo sob ataque.
Culpar o BC por manter juros elevados desvia a atenção do verdadeiro problema: gastos excessivos e ineficiência do setor público. Além disso, discursos inflamados contra banqueiros e o mercado são eficazes quando direcionados a um público menos familiarizado com conceitos econômicos.
Cumprindo nosso papel.
Tornar a economia acessível não é apenas uma questão de simplificar o discurso, mas de empoderar indivíduos para que participem ativamente das discussões e decisões econômicas que afetam suas vidas e comunidades.
Marcos J. G. Rambalducci - Economista, Professor da UTFPR.