03 de agosto de 2020


03 de agosto de 2020

03-08-2020_ECONOMIA_PARA_TODOS

Olá meus caros. Como já sabem, neste espaço discutimos e procuramos trazer entendimento a situações econômicas de nosso cotidiano, que nos afeta, mas que, no mais das vezes acabamos não dando muita importância.

A ideia é de abordar de forma clara e simples algum tema do momento, que seja importante, relevante e que nos afete. Mas esta coluna é feita com sua participação. Mande um e-mail para nós no economiapratodos@nupea.org e escreva sobre o que você gostaria de ver comentado aqui. 

Na coluna passada falei sobre os resultados da Sondagem realizada junto a Industria Eletro Metal Mecânica de Londrina e como ela mostra que a cidade pode retomar uma normalidade econômica mais rapidamente do que parecia possível. Hoje quero abordar um tema que fui questionado ao longo da semana. A razão do Banco Central optar pela emissão de notas de R$ 200,00 e como isso pode nos afetar.

Trazer este tema aqui é relevante porque, vocês devem ter visto que nas redes sociais já houve quem afirmasse que a nova cédula seria um indicador de retorno da inflação descontrolada que vivenciamos nas décadas de 1980 e 1990, já que supostamente seria um indício da desvalorização do real.

Para relembrarmos, a nossa nota de maior valor até o momento é a de R$ 100,00. Ela foi lançada a 26 anos, em julho de 1994, na época da implantação do Plano Real, no governo de Itamar Franco.

A preços de hoje, essa nota, corrigida pelo IPCA, ou seja, aplicada a inflação do período, equivaleria a R$ 622,00, isso porque a inflação acumulada foi de 522% durante estes 26 anos, arredondando os números, o que significa uma inflação média de 7,3% ao ano, infinitamente menor aos 80% de inflação em um único mês, que tivemos, em março de 1990. 

Então, proporcionalmente a nota de R$100,00, quando foi lançada, carregar uma nota de R$ 200,00 na carteira é três vezes menos pesado. A título de comparação, o salário mínimo em julho de 1994 era de R$ 64,79, ou seja, trabalhador ganhando salário mínimo nunca ia ver uma nota de R$ 100,00 na sua carteira.

E por que razão o BC decidiu por imprimir mais moedas? Dois motivos levaram as pessoas a manter mais dinheiro vivo na carteira. Primeiro porque a inflação está muito baixa e as pessoas não estão preocupadas em perder poder de compra mantendo cédulas na carteira, e porque com a inflação baixa os juros também estão muito baixos, não justificando a preocupação em aplicar esse dinheiro.

Segundo, porque o auxílio emergencial de R$ 600,00 colocou dinheiro na mão de muitas pessoas que não tem o hábito de trabalhar com o sistema bancário. Então vão até o banco unicamente para resgatar todo o dinheiro e os mantem com eles.

Estas duas razões fazem com que a velocidade de circulação do dinheiro diminua, então o Banco Central precisa disponibilizar mais notas de dinheiro para compensar esta retenção.

Esta situação é completamente diferente daquela impressão de dinheiro que o governo faz quando não consegue pagar suas contas e então emite mais dinheiro. Neste caso sim essa emissão provoca inflação, mas reservaremos esta explicação para outra ocasião.

Mas daí que você pode estar se perguntando. Tá, mas porque não imprimir mais notas de R$ 100,00 em vez de criar uma nova nota de R$ 200,00?

Imprimir dinheiro tem custos. Cada lote de 1.000 notas impressas custará em média R$ 183,00. O BC solicitou a impressão de 450 milhões de notas de R$ 200,00, o que custará  R$ 82,3 milhões. Se optasse por notas de R$ 100,00 este custo seria o dobro R$ 164,6 milhões. Além disso, essas notas precisam ser transportadas. O custo deste transporte cai pela metade com notas do dobro do valor, obvio, não? Então, a impressão de notas de R$ 200 é também uma questão de economia.

A dificuldade que vejo é em relação a troco. Mesmo considerando que a nota de R$ 200,00 é um valor significativamente menor que a nota de R$ 100,00 quando lançada, será desagradável pagar uma despesa de R$ 15,00 com uma nota de R$ 200,00.

Há quem veja na impressão de notas de maior valor um incentivo a operações ilegais - tráfico de drogas, contrabando, corrupção etc. -, que costumam ser feitas em dinheiro vivo, como forma de escapar dos controles oficiais. Mas atribuir a facilitação a operações ilegais pela impressão de notas de R$ 200, quem me parecer fantasioso demais. É como querer combater a corrupção imprimindo somente notas de R$10,00.

Pensa nisso.

Te vejo na próxima coluna e até lá, se cuida.