19 de outubro de 2020


O dólar abre hoje na bolsa de valores cotado a R$ 5,64, que significa 40,3% de alta em relação a 1º de janeiro. Difícil não se perguntar quais as razões que levam o país a ter uma desvalorização maior que a média dos demais emergentes. Os pontos a seguir ajudam a atender o título da coluna e as razões que nos fazem acreditar que o dólar não deve retornar tão cedo a patamares menores.

A taxa de câmbio ...

O câmbio a que nos referimos aqui é o câmbio nominal, aquele que mostra qual é o preço de uma moeda em relação a outra - neste caso o preço do dólar em relação ao real.

... é definida pelo mercado.

O que determina uma elevação no preço do dólar (ou sua cotação) será sempre a relação entre oferta e demanda - se mais pessoas querem dólar e a quantidade disponível não se alterou, seu preço sobe, e também subirá se a demanda por dólares for a mesma mas a quantidade disponíveis diminuir. 

Quem oferta ...

O exportador traz dólares para o mercado, assim como o estrangeiro que decide investir no país – eles ofertam dólares.

... e quem demanda.

Já quem importa precisa de dólares para pagar pela mercadoria estrangeira, o mesmo ocorre com quem está retirando seus investimentos do país – eles demandam dólares. 

Recuo na oferta de dólares ... 

Embora batendo recordes de exportação, com saldo na balança comercial de US$ 42,4 bi, a saída de capital estrangeiro foi muito maior e deixou um saldo negativo no fluxo cambial líquido de US$ 18,7 bi até agora. Eis o motivo da alta do dólar, mas o que explica esta fuga de dólares?

... pela pandemia ... 

É esperado que em momentos de incerteza e crise como os provocados pela pandemia que assolou o mundo, investidores busquem manter seu dinheiro em ativos considerados mais seguros, como títulos do Tesouro americano ou ouro.


... e pela queda nos juros.

Também os sucessivos cortes na Taxa Básica de Juros, torna os papéis da dívida pública do país menos atrativo para investidores financeiros, pois eles não remuneram mais tanto quanto antes.

Mas há algo mais no Brasil.

No entanto, a COVID atingiu o mundo todo e a queda na taxa de juros é adotado na maioria dos países como instrumento de política monetária para estimular a economia. A pergunta que se faz é: por que o real se desvaloriza mais que outras moedas de países emergentes?

Uma pitada de desequilíbrio nas contas...   

Primeiro: o investidor estrangeiro tem uma percepção muito clara de que o Brasil tem um problema fiscal sério, com uma dívida pública que ultrapassará os 100% do PIB já em 2020, e questões políticas que são obstáculo na aprovação de reformas tão necessárias, especialmente a administrativa, e a tributária.

... e mais lenha na fogueira.

Segundo: a maneira com que o país tem administrado as questões ambientais faz com que muitas empresas não queiram vir para o Brasil, porque enxergam que as políticas aqui não são ecologicamente sustentáveis.

Em resumo.

Os impactos econômicos provocados pela pandemia, a política monetária derrubando os juros, somado aos problemas criados por nós mesmos, nos torna um país que afugenta  a entrada de capital provocando desequilíbrio entre a oferta e demanda de dólares e como consequência, uma elevação na taxa de câmbio.

E... sei não..., mas a história do boi bombeiro no pantanal ... acho que não vai colar.


Dr. Marcos J. G. Rambalducci, Economista, é Professor da UTFPR. Escreve às segundas-feiras.