19 de abril de 2021


Não restava dúvidas que as possibilidades tecnológicas trazidas e incorporadas ao nosso cotidiano transformariam a vida dos cidadãos, mas foi com o advento da COVID-19 que a adoção tecnológica ganhou velocidade estonteante, mesmo para aqueles já nascidos neste ambiente cibernético. 

Isolamento e distanciamento social, restrição de deslocamento, uso de máscaras de proteção, adoção de medidas sanitárias para minimizar o contágio provocaram rápidas mudanças sociais, mas o que garante que, vencida a pandemia, não teremos o retorno ao antigo normal é a clara percepção de ganho na produtividade do trabalho com a imposição do home office.

 

Economia retoma, mas emprego não.

O economista e professor da FEA-USP Naercio Menezes Filho, em artigo da semana passada (16) do jornal Valor Econômico, chama a atenção para uma intrigante constatação: A atividade econômica retornou aos níveis pré pandemia, mas o número de trabalhadores empregados se manteve em patamar 8% inferior.

O aumento da produtividade ...

Ora, menos pessoas fazendo a mesma quantidade significa aumento na produtividade. Daí o articulista se perguntar qual seria a origem deste ganho de produtividade e se ela se manterá quando a pandemia for superada.

... impulsionado pelo home working.

A explicação encontrada por Filho é que o trabalho em casa e as compras pela internet tornou as pessoas mais qualificadas ainda mais produtivas e diminuiu a necessidade de contratação de trabalhadores.

Diminui as distrações ...  

Trabalhando em casa as pessoas ganham o tempo de deslocamento, passam menos tempo conversando com os colegas, as reuniões se tornam mais produtivas e o resultado é que esse trabalhador rende mais em casa que quando em jornada normal na empresa.   

... e aumenta o tempo da jornada.

Não tenho dúvidas que minha produção aumentou significativamente realizando meu trabalho em casa, unicamente que me parece que foi muito mais pelo aumento na jornada de trabalho do que ganho de eficiência.

Sem volta ...

Seja pelo aumento na eficiência, ou simplesmente porque o trabalhador agora passa mais tempo atendendo a demanda da organização, o fato é que uma parte considerável no trabalho não retornará para o ambiente da empresa.

... e com reflexos em tudo.

Essa constatação consolida uma série de outras mudanças comportamentais que abrem enormes oportunidades e desafios, tanto no setor público – especialmente em relação a demanda por espaços abertos  para lazer, quanto em segmentos que vão da construção civil, adaptando as moradias a um novo estilo de vida, quanto à forma de se comunicar com o cliente, vender e entregar.

Fica esperto.

Ainda me parece cedo para entender todo o impacto que uma alteração na forma com que as pessoas trabalham e entregam seus resultados afetará a vida cotidiana, mas uma coisa é certa: pessoas e empresas precisam estar atentas especialmente porque nem todas serão chamadas para o banquete. 


Marcos J. G. Rambalducci - Economista, é Professor na UTFPR. Escreve às segundas-feiras.