08 de março de 2021


Na carona da divulgação feita pelo IBGE na última quarta-feira (03), da queda de 4,1% do PIB, a mídia estampava a saída do Brasil do clube das 10 maiores economias do mundo.

Certamente alguém deve ter se perguntado como poderia isso ocorrer se dentre os países que nos ultrapassaram, somente a Coreia do Sul apresentou desempenho melhor  enquanto Rússia e Canadá apresentaram desempenho similar ou pior.

A explicação está na forma com que é calculado o PIB de cada país.

O Produto Interno Bruto ...

O PIB foi criado em 1934 pelo economista Simon Kuznets e busca estimar o valor total dos bens e serviços acabados produzidos dentro de um país durante um período especificado, geralmente um ano. 

... é um indicador medíocre...

Embora seja considerado um instrumento rudimentar para medir o crescimento e pior ainda para uma avaliação universal de um país, ele continua muito usado como referência do tamanho de uma economia.

..., mas é um indicador, ... 

A despeito de suas limitações, o fato é que o PIB do Brasil tem figurado na lista das 10 maiores economias do mundo desde 2006. Entre 2010 e 2014 se manteve na 7ª posição, e em 2019 aparecia no 9º lugar.

... e o Brasil caiu 3 posições.

Segundo projeções da Austin Rating, agência brasileira de classificação de riscos, a queda de 4,1% do PIB em 2020 coloca o Brasil perdendo 3 posições no ranking e passa a ocupar a 12ª posição.

Uma dura queda ...

Embora esta queda seja a maior que o país teve nos últimos 30 anos (em 1990 o PIB caiu 4,3%), na comparação com os países nas posições acima do Brasil, somente China (2,3%) e EUA (-3,5%), se saíram melhor.

..., mas houve piores ...       

Entre a 8ª e 3ª posição, a queda no PIB foi bem maior: Itália (-8,9%); França (-8,2%); Reino Unido (-9,9%); Índia (-6,8%); Alemanha (-5%) e Japão (-4,8%). Nas posições entre 10º e 14º: Canadá (-5,4%), Rússia (-4,1%), Coreia do Sul (-1%), Austrália (-1,1%) e Espanha (-11%).

... então como se explica?

Olhando os números, causa alguma estranheza tal queda no ranking, mas então é preciso verificar como é feito este cálculo.  

A desvalorização cambial...

O cálculo consiste em somar todos os bens e serviços produzidos em 2019 e, para permitir a comparação dos PIBs entre países, este valor é convertido pela cotação corrente do dólar em cada país.

... explica essa matemática...

Acontece que a desvalorização do real frente ao dólar no ano passado foi de 32,9%. Em 2019 o PIB foi de R$ 7,3 tri que convertidos ao câmbio da época representa US$ 1,83 tri. Com a queda de 4,1% e o câmbio atual este valor cai para US$ 1,23 tri, sendo superado por Canadá, Coréia e Rússia, nessa ordem.

... que poderia ser outra.

No entanto, se em vez de utilizar esta forma de cálculo, fosse utilizado o conceito de Paridade de Poder de Compra (PPC), que substitui a taxa de câmbio nominal por uma métrica que compara o poder de cada moeda em adquirir os mesmos produtos e serviços, o resultado seria outro.

Diferença nenhuma.

Usando o conceito de PPC, superaríamos o Reino Unido e a França. Assim, cair ou subir na posição do ranking em dólares correntes, na verdade não permite chegar a nenhuma conclusão relevante, mesmo porque o PIB continua rigorosamente do mesmo tamanho.

Mas é ótimo para causar impacto.

 

Dr. Marcos J. G. Rambalducci, Economista, é Professor da UTFPR. Escreve às segundas-feiras.