05 de abril de 2021


A convergência entre a maioria absoluta dos economistas é por uma sociedade mais justa e rica. Por essa razão meu carinho e respeito a todos eles.

A divergência está em qual caminho trilhar, por isso a importância do debate no campo das ideias.

O auxílio emergencial, reconhecidamente necessário e  que começa a ser pago este mês, tem trazido à tona diferentes pontos de vista sobre a capacidade de endividamento do governo.

O título da coluna dá o tom de meu ponto de vista.

Pessoas não comem moeda...

Vi dia desses a sugestão de que o governo deveria imprimir dinheiro e distribuí-lo a quem tem fome. Imagino um sujeito saciar a fome comendo uma nota de R$ 100. Não é o dinheiro que mata a fome, é o arroz e feijão.

... e o governo não imprime arroz e feijão.

Sim, mas o dinheiro permitirá que ele compre o arroz e feijão, dirá você. É aí que reside o problema. Mais dinheiro não significa mais arroz e feijão. O estoque de produtos já está dado e, mesmo em um país rico como o nosso, não é possível produzir alimentos com a mesma facilidade com que se imprime dinheiro.

Moeda é meio de troca...

Os índices de inflação são a prova cabal de que há um limite no curto prazo, na quantidade de alimentos (mas não só deles). Se a quantidade continua a mesma, alguém me explique como é que imprimir dinheiro vai ajudar a matar a fome das pessoas? O único que fará é impulsionar os preços.

... e endividamento não ajuda.

Na mesma linha,  defender que o governo deve aumentar o valor do auxílio emergencial porque tem capacidade de se endividar uma vez que emite a moeda que vai ser utilizada para o pagamento da dívida é, no mínimo, surreal.

Raciocine você...

Por essa proposta, o mundo não alcança a felicidade econômica plena simplesmente porque os governos não se endividam o suficiente. Percebeu?

... se faz algum sentido...

Mas já que a proposta é pagar a dívida com emissão de dinheiro, exatamente o porquê fazer a dívida? Não bastaria imprimir dinheiro já? É ..., mas daí não dá para empurrar pra frente o problema, né?

... sacar contra o futuro.

Endividar-se significa tomar emprestado, ou seja, usar agora o que se pretende ganhar no futuro. Em outras palavras estamos fazendo saques contra a sociedade composta pelas gerações vindouras. 

Entender o mundo em que vivemos ...

Pensar em pagar dívida via emissão de dinheiro é uma lógica que não se sustenta. Jogar nossos problemas para as gerações futuras também não é justo. Portanto, vale a pena essa reflexão.

... e reconhecer que temos limitações.

O auxílio emergencial aprovado é pouco, não resta dúvidas, no entanto, é o valor considerado aceitável para ser debitado nas costas da sociedade neste momento, conforme o voto de quem nos representa.

Pés na realidade ...

E é importante que cada um tenha claro que não existe essa de que é o governo que arca com estas decisões. O governo somos nós. Não o entendamos como uma entidade descolada do que produzimos e consumidos. E por consequência, a conta é sempre nossa.

... e atenção às soluções fáceis.

Para todo problema complexo existe sempre uma solução simples, elegante e completamente errada, diria Henry Louis Mencken, jornalista americano e fervoroso crítico da economia.


Dr. Marcos J. G. Rambalducci, Economista, é Professor da UTFPR. Escreve às segundas-feiras.